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A falta de um modelo de pai

Antes de iniciar essa reflexão, quero aqui registrar que não tive nenhum problema por falta de modelo do meu pai, com quem, infelizmente, vivi por pouco tempo já que ele faleceu quando eu tinha onze anos de idade. Mas tenho muito orgulho dos valores que dele recebi, diretamente ou através da boca de outras pessoas, que sempre me relatam a forma de agir de um homem simples, carismático e líder, além de um excelente pai.

Minha reflexão está na análise da falta da modelo frente a situações jamais vivenciadas em um mundo dinâmico onde, prematuramente, se buscam soluções a problemas que sequer sabemos que existem, e quando sabemos, não possuímos modelos a imitar.

A tradicional alegação que agimos com os valores que aprendemos com nossos pais, a meu ver não prospera por ser irreal. Vivemos os valores que aprendemos, adaptamos e aceitamos numa sociedade da nossa época, se não conservaríamos o que em outro momento era a regra e hoje é a exceção.

Por exemplo, meu bisavô (não conheci) talvez fizesse diferença entre pessoas de cor negra ou branca, enquanto hoje tenho dificuldade de explicar ao meu filho o que é racismo pela cor da pele, o que, na cabeça dele não existe na sociedade, já que ele nem sabe o que é fazer esse tipo de distinção.

Agimos de acordo com aquilo que conhecemos, cremos e acreditamos da uma vista da janela social que temos.

Hoje me vi diante de uma situação com a qual não sei como agiria meu pai. Meu filho, como de costume, me convidou para irmos a quadra de nosso prédio jogarmos futebol, coisa de "pai com filho" mais ninguém. Apesar de estar extremamente cansado pela semana em que percorri sete cidades, aceitei o convite.

Descemos, eu e ele. Sei de seu sonho de ser um grande jogador de futebol, como a maioria dos meninos de sua idade. Pedi que chutasse mais forte, que dominasse melhor a bola, que colocasse o chute com precisão. Lá estávamos quando, subitamente, me vi só. Ele havia sumido sem me dar notícias, me deixando preocupado, sem falar onde tinha ido.

Retornei ao apartamento e irritado o questionei sobre as razões que o tinha feito a agir daquela forma. "Aquele negócio de ficar mandando eu chutar mais forte, dominar a bola é chato!"

Meu chão abriu sob os meus pés pois me vi cobrando de um menino de sete anos o atingimento de uma performance futebolística que o levasse a atingir sua "meta" de ser um grande jogador, assim como diariamente sou cobrado em metas e resultados. Eu estava errado, mas havia me faltado um modelo.

O modelo é utilizado para padronização, imitação em situações equivalentes, nas práticas e no comportamento. Vi que, mesmo que meu pai tivesse convivido comigo muitos anos, me faltaria o modelo, pois as situações, o mundo e suas exigências são outras e caberia a mim somente criar uma paternidade que melhor servisse ao meu filho.

Pedi desculpas a ele, explicando-o que achei que estava marcando um "gol de placa" quando, na verdade, estava fazendo "um gol contra de canela". Confesso que também não sei se meu pai agiria assim, mas fiz conforme o meu coração sugeriu e ganhei um forte abraço.

Minha homenagem a meu pai, avô, bisavô e antecessores que fizeram o melhor que podiam mesmo sem terem modelos.

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