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Populismo: Quando a Simbologia Fala Mais Alto que a Solução

A política, muitas vezes, se comunica mais por símbolos do que por discursos. O lançamento do programa "Gás do Povo" pelo governo Lula foi um desses momentos onde a encenação política revelou mais sobre as intenções e referências do que o próprio conteúdo do programa. Como aprecoador e participante político, não se pude ignorar o peso desses gestos, que vão muito além de uma mera cerimônia de lançamento.

O programa em si, que visa subsidiar o botijão de gás para famílias de baixa renda, aborda uma dor real e urgente na vida dos brasileiros: o custo de vida. Ninguém em sã consciência é contra o alívio imediato para quem sofre com preços altos. A questão crítica, no entanto, reside na natureza da solução apresentada e, sobretudo, no seu modus operandi e na sua simbologia.

Aqui, o paralelo com os modelos cubano e venezuelano se torna inevitável e pertinente. Cuba há décadas opera sob um rígido sistema de distribuição pública de alimentos e produtos básicos através da libreta de abastecimiento. A Venezuela, sob o regime chavista, criou os CLAP (Comités Locales de Abastecimiento y Producción), caixas de alimentos subsidiados e distribuídos pelo Estado.

O que esses programas têm em comum? São, em sua essência, instrumentos de controle social. Eles criam uma relação de dependência direta e pessoal do cidadão com o Estado-partido. A mão que oferece o benefício é a mesma que pode retirá-lo, criando um poderoso mecanismo de barganha política e lealdade eleitoral. A autonomia do indivíduo é suplantada pela tutela estatal. O cidadão se transforma em um beneficiário, um dependente.

O "Gás do Povo" segue a mesma lógica. Não se trata de empoderar economicamente o cidadão para que ele próprio adquira seu gás no mercado. Trata-se de torná-lo dependente de um voucher, de um benefício estatal, sujeito às vicissitudes orçamentárias e, principalmente, aos interesses políticos do governo de plantão.

E foi aí que a simbologia do lançamento falou mais alto. O vermelho vibrante do palanque, a vestimenta do Presidente Lula e de seus apoiadores mais fiéis não foi uma coincidência cromática. O vermelho é, historicamente, a cor do socialismo. Mas no contexto latino-americano do século XXI, ele foi apropriado de forma mais específica pelo chavismo e pelo castrismo como sua marca registrada. A foto do evento poderia facilmente ser confundida com um comício de Nicolás Maduro ou com a celebração de um dos "missiones" venezuelanos.

Lula, um político astuto e conhecedor do poder das imagens, escolheu vestir essa referência. Foi uma mensagem clara para sua base mais ideológica: uma reafirmação de seu alinhamento com a vertente bolivariana e populista da esquerda latino-americana. É a estética e a prática do populismo sendo abraçadas publicamente, sugerindo que o caminho brasileiro pós-Bolsonaro se inspira mais no modelo de controle estatal venezuelano do que em experiências social-democratas modernas e bem-sucedidas.

Não podemos nos enganar. Programas de distribuição de renda pontuais e temporários têm seu lugar em situações de extrema emergência. Mas elevá-los à condição de política de Estado permanente é um erro estratégico monumental. A história recente de nossa região é o laboratório que comprova isso: a Venezuela, com todos seus programas sociais, está em frangalhos, com uma diáspora milionária e uma economia destruída. Cuba vive em um eterno estado de carência controlada.

O verdadeiro caminho para a dignidade e a soberania do cidadão não é o gás do povo, mas a renda do povo. O melhor programa social é, e sempre será, um trabalho sólido que produza riqueza, gerado por uma economia pujante, com reformas estruturais que melhorem o ambiente de negócios, combatam a burocracia e incentivem a livre iniciativa. É o modelo das nações verdadeiramente prósperas e democráticas, que priorizam a geração de riqueza para que o cidadão possa fazer suas próprias escolhas no mercado, sem depender do beneplácito do governante de turno.

Substituir a geração de trabalho, emprego e renda pela distribuição de benesses estatais é trocar o empoderamento pela dependência, a liberdade pelo controle. E o vermelho das bandeiras, nesse contexto, parece menos uma cor de esperança e mais um sinal de alerta para os rumos que queremos dar ao nosso país.

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